todo dia quando eu subo as escadas, minha garganta aperta...
olho por entre a porta, e está tudo lá... a mesa alta de trabalho, as tesouras, os moldes, tua letra escrita no papel, teu cheiro... tudo. já não preciso nem olhar com atenção para ver tudo na mesma hora... para me ver sentada no banco alto, tão pequena e os pézinhos balançando... giz e papel na mão... pedindo a tesoura, que você não emprestava...
várias vezes engulo o choro. várias outras, entro e sento no mesmo banco... e deixo a garganta apertada virar choro.. e ele vem e quase me sufoca...
aí, me dá uma saudade... uma tristeza, que não tem solução. nem hoje, nem nunca. e nunca vai passar... fico fingindo que você vai chegar... mas só posso fingir...
essa tristeza, ultimamente me invade também toda vez que eu fico feliz por isso tudo aqui...
toda vez que eu fico feliz por estar aqui, tenho medo de só estar aqui porque você não está... e isso me mata... aí lembro que sinto sua falta pelo exemplo que vc foi... de força e generosidade... e realizo que se você estivesse aqui eu poderia estar aqui também... isso jamais seria um problema...
aí, eu choro mais... porque imagino como teria sido bom... e agora quem te levaria pra tomar sorvete seria eu...
mas não vou te levar pra tomar sorvete... nunca mais. nunca mais vou te ver... nunca mais vou te ouvir cantar... e isso me mata.
você nunca vai ver a beleza do que eu estou fazendo aqui... na tua casa. você nunca vai ver como teria se orgulhado e participado, e até cantado...
quanto mais o tempo passa, tudo isso só fica pior, porque eu nunca mais vou te ver, e o tempo só faz o tempo em que eu podia te ver ficar mais longe... e isso, me mata.
sinto muito a tua falta. e vou sentir pra sempre... e se é verdade que um pouco de você continua vivo através de mim, fico feliz que seja a lucidez e as letras inventadas de músicas estranhas... não as esqueço jamais... e as vezes até me pego cantando sozinha... aí eu choro... mas em meio às lágrimas, vêm fortes gargalhadas...
obrigada por pelo menos ter existido quando eu já existia.
Escrito por la bavarde às 15h32
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