e a realidade?
esse movimento, ora em direção a, ora em fuga da realidade, é claro no desenrolar da história da arte, da representação da relação do pensamento humano e da vida que o cerca.
parece que toda vez que uma clareza muito grande da realidade humana nesse mundo acomete o artista de determinada época, é quase certo dizer que virão movimentos que se especializam no extremo contrário, ora se aprofundando em verdades etéreas de um mundo, que não esse, ora se enebriando em representar os grupos de pessoas, que por questão de privilégio material, não precisam, e justamente por isso insistem em não se relacionar com a realidade...
essa busca e percepção da realidade, ora se mostra uma busca perceptiva individual da relação entre o mundo e o sujeito pensante, criador, ora se dá como consciência social, essa última na verdade, último exemplo de mergulho na realidade, aberta por goya e sua impossibilidade de não "olhar" a realidade por vezes mais real que o suportável a seus olhos, da guerra como consciência da opressão entre classes.
essa fase de mergulho na consciência social se extende até o fim do movimento moderno... a repetição e simplificação da máquina, endossa a arte da preocupação social com o lema de simplificar para tornar acessível. e como não poderia deixar de ser, esse movimento é sucedido por mais um mergulho para fora da realidade.
vêm as guerras, e os artistas fogem da realidade avassaladora, mergulhando em si próprios... está lançada a semente do que culminará no abstracionismo máximo de pollock.
mas...
pollock aconteceu há 50 anos. a europa já se reconstruiu, e a arte continuou abstrata. enquanto fugimos do trabalho as 15h00 com medo do PCC, o mundo está desmoronando lá fora, fora da cidade burguesa...
e a nossa arte representa mais do que nunca a alienação das nossas classes dominantes, buscando acima de tudo um exercício estético, que se fecha em si mesmo numa busca obsessiva de uma quase espiritualização da superfície da matéria e da composição... ou seja, supérfluo.
quando é que a arte vai voltar a olhar para a realidade miserável daqueles que nunca poderão sonhar em ser artistas? quando é que a representação estética de vanguarda, que nasce de dentro das classes dominantes (como sempre nasceu), irá assumir o seu papel de vanguarda pensante e ao menos representar a realidade massacrante, que varre qualquer possibilidade de existência artístico-consciente para a grande maioria, base produtiva, da nossa realidade enquanto organização social entre os homens?
hoje eu me deixo essa pergunta:
se o último movimento, que se dignou a olhar a realidade, fez ao menos o favor de pela primeira vez, reconhecer a disparidade entre as classes há 200 anos atrás, será que já não é hora de um novo movimento surgir com uma nova proposta para essa realidade?
será que além de reconhecer a diferença e criar uma estética simplista, minimalista e acessível, não devem os artistas começar a propor para a massa, nada mais nada menos do que proporiam para si e seus iguais?
hoje eu me deixo essa pergunta.

(Goya)
Escrito por la bavarde às 19h35
[]
[envie esta mensagem]
|